As pessoas de pedra que passam seus dias em espaços públicos da cidade podem revelar e reafirmar as relações sociais do nosso país. Ao ver uma pedra em formato de bandeirante pegando fogo, houve quem sentisse tamanha revolta e dor como se a obra fosse um parente próximo. 

 

Paulo Lima faz parte do coletivo Revolução Periférica que colocou fogo no coitado do Borba Gato de 13 metros de altura. O vândalo ativista fez o ato com um propósito terrível: abrir o debate. Como bom defensor da classe trabalhadora e líder dos entregadores antifascistas, foi preso. E permaneceu na cadeia mesmo após ter sua prisão temporária revogada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Isso porque a juíza Gabriela Marques Bertoli negou a soltura e determinou prisão preventiva. 

 

Já o bandeirante “genocida e abusador de mulheres” - nas palavras de Paulo - recebeu um gesto de compaixão. Um bom empresário se prontificou a pagar pela reforma da obra de Júlio Guerra que enfeita o bairro de Santo Amaro. 

 

Em outro caso, para erguer o monumento de mais de 40 metros de altura em homenagem a Duque de Caxias, os trabalhadores de São Paulo foram convidados pelo governo a doar parte de seu salário. Nada mais justo, afinal trata-se de uma estátua ao Pacificador que liderou a repressão a revoltas como Balaiada e Cabanagem, em que a estimativa é de mais de 40 mil mortos.

 

Já para erguer a primeira estátua de uma personalidade negra na cidade, os responsáveis pelo jornal O Progresso tiveram que se desdobrar para arrecadar dinheiro. A obra que homenageia Luiz Gama não recebeu apoio financeiro do poder público. Nada mais justo, afinal, ele foi só um abolicionista que atuou na libertação de mais de 500 escravizados.

O TCC

Memórias de Pedra é um projeto que reúne reportagens sobre oito monumentos da cidade de São Paulo. Monumento ao Anhanguera, Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, Luiz Gama, Monumento às Bandeiras, Mãe Preta, Duque de Caxias, Borba Gato e Tebas. Trata-se do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Jornalismo, que além deste site conta com um perfil no Instagram.

 

Ao ler os textos é possível conhecer o contexto histórico em que as estátuas foram instaladas, seu processo de construção, a intenção dos idealizadores, além de informações sobre a pessoa homenageada. Se descobre, por exemplo, que o bandeirante Anhanguera era corrupto e foi punido por isso. E também que houve um almoço na barriga do cavalo da estátua de Duque de Caxias. 

 

As intervenções que ocorrem nos monumentos são outros aspectos abordados. É o caso da tinta vermelha no Monumento às Bandeiras e do julgamento de Borba Gato. E pensando na relação atual da população com essas obras, há as oferendas deixadas para a estátua da Mãe Preta e as caminhadas em memória a Luiz Gama que passam pelo seu busto.  

 

A escolha por esse tema de TCC ocorreu a partir do movimento de derrubada de estátuas que alguns países vivenciaram em 2020 e cuja discussão reverberou no Brasil. Durante a elaboração do trabalho, é notável que o tema continua presente. Como ficou evidente com o Borba Gato em chamas em julho de 2021. E ainda com a criação de uma lista da prefeitura indicando 40 monumentos controversos da cidade. 

[Clique sobre uma estátua para ler a reportagem sobre ela]

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Anhanguera

Glória Imortal

Caxias

Mãe Preta

Luiz Gama

Monumento às Bandeiras

Tebas

Borba Gato

A cara dos monumentos 

 

Ao andar pela cidade é bem mais provável que você cruze com o monumento de um homem branco do que com o de um homem negro ou indígena. Cruzar com mulheres de pedra é ainda mais difícil. Estátua de mulher negra existe apenas uma. 

 

De acordo com uma pesquisa do Instituto Pólis, dos 367 monumentos da cidade, há 155 representando pessoas brancas, e 5 homenageando pessoas negras. O levantamento foi lançado antes da inauguração do monumento de Tebas, que homenageia um negro escravizado que atuou como mestre de obras. O estudo mostra ainda que são 4 as estátuas que representam indígenas. 

 

Somado a isso, o tamanho dos monumentos de pessoas negras e indígenas é inferior a alguns dos monumentos contraditórios. 

 

Escravocratas ao chão 

 

O assassinato de George Floyd ocorreu em maio de 2020, em Minneapolis. O homem negro foi morto pelo policial branco Derek Chauvin, que ajoelhou em seu pescoço. 

 

Por Floyd e por toda a população negra, manifestantes foram às ruas. Os protestos antirracistas ocorreram nos EUA e em outros países. O ato de derrubar estátuas de escravocratas ganhou destaque. 

 

Anos antes, em 2015, estudantes da Universidade da Cidade do Cabo (UCT), na África do Sul, protestaram pela retirada do monumento Cecil John Rhodes. A homenagem ao colonizador britânico fazia parte do campus da universidade. Segundo a professora Giselle Beiguelman em reportagem do Jornal da USP, os estudantes proclamaram que Rhodes Must Fall, (Rhodes tem que cair). A chamada deu origem, segundo ela, ao movimento Fallist, algo como “derrubacionistas” em português. 

 

História de quem? 

 

“Os monumentos de São Paulo permitem que os visitantes façam uma viagem no tempo para conhecer a história do Estado de São Paulo e do Brasil”. A frase está no site do governo do estado de São Paulo, na aba “Conheça SP”, logo abaixo de uma imagem do Monumento às Bandeiras. Mas a história de quem esses monumentos contam e de que forma? 

 

Para Pedro Alves, pesquisador do coletivo Cartografia Negra, o apagamento da história negra tem um impacto difícil de dimensionar. “Teoricamente a cidade está sempre te agredindo, sempre negando a sua história, negando a formação da sua consciência, de quem você é” e, ao mesmo tempo,“a cidade não tem uma formação plena de quem ela é”. 

 

O coletivo que Alves participa visa justamente ressignificar territórios negros históricos em São Paulo. Nesse sentido, realizam a Volta Negra, uma caminhada pelo centro da cidade que passa por pontos importantes da história da população negra de São Paulo. 

 

Num projeto semelhante, o jornalista Guilherme Soares realiza a Caminhada São Paulo Negra, que tem o objetivo de contar a história preta de São Paulo que ele não conhecia quando passou a morar na cidade. Ele comenta que após criados os roteiros parecem óbvios, porém não estão demarcados na cidade.  

 

“Eu me sinto pouco representado nas cidades brasileiras” revela Soares, que diz que o racismo estrutural retratado nas estátuas não é algo exclusivo da cidade de São Paulo. O jornalista acredita que é preciso reivindicar maior representatividade nos monumentos, “a gente precisa sinalizar que a gente vai ter mais pessoas negras homenageadas nesse lugar de herói”. 

 

“As coisas construídas ainda são elite”

 

“O patrimônio é o retrato de uma hegemonia”, é o que diz o museólogo Arthur Barbosa, e por isso “é branco, cis, heteronormativo”. Segundo Barbosa os patrimônios são excludentes, pois vem de um processo de hegemonização. Isso vai de encontro a definição de patrimônio prevista na Constituição Federal, que em seu artigo 2016 diz que: “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial (...)  à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. 

 

A arquiteta Kaísa Isabel Santos salienta que a memória sobre a cidade sempre veio num movimento de cima para baixo. “A gente tem que ter em mente que quem fazia e quem levantava tanto patrimônios quanto monumentos era o pessoal relacionado à governança”, diz. 

 

Santos chama atenção para o fato de que há itens relacionados à memória negra que não são construções e que é necessário sair do centro da cidade para buscar essas narrativas, que muitas vezes são passadas de forma oral. “As coisas construídas ainda são elite", afirma.

 

Paulo Marins, historiador e docente do Museu Paulista da USP, explica que os monumentos se tornam difundidos no meio urbano durante o século XIX na Europa. Diz ainda que a distorção vista lá, onde as obras são majoritariamente de homens brancos, também é reproduzida nas Américas. É uma "prática que hierarquiza a sociedade na cidade”, diz. 

 

Ele corrobora com a visão de que essas obras são excludentes, pois “recortam a nossa sociedade de maneira absolutamente desigual”. Acrescenta que as estátuas narram que a história da cidade é feita por um tipo de personagem, enquanto os outros são esquecidos ou representados de maneira hierarquizada. 

 

Para o doutor em História pela Universidade Federal Fluminense, Marcus Dezemone, repensar as estátuas que temos é também repensar nosso passado de modo a construir um futuro diferente. “O monumento não é só uma homenagem ao passado, ele não é só uma referência ao passado” explica e continua  “o monumento é também aquilo que do passado a gente gostaria de ver no presente e de ter no futuro”. 

 

O historiador cita a frase de George Orwell, no livro 1984: “Quem controla o passado, controla o futuro”. E diz que “ter essa visão de passado nos remete a um determinado projeto de futuro”. 

 

Bandeirantes em toda parte 

 

Os bandeirantes são figuras de destaque dentre os monumentos da cidade. Nomeiam também avenidas, escolas, rede de rádio e televisão e até o edifício-sede do governo do estado - Palácio dos Bandeirantes. 

 

De modo geral, os bandeirantes eram homens que durante o período colonial adentravam o território do país à procura de metais preciosos, atuando também na captura de escravizados e indígenas, incluindo a destruição de quilombos e escravização de indígenas. 

 

A colocação desses personagens como heróis surgiu como um modo de dar identidade à elite paulista que surgia no país no século XIX, principalmente os cafeicultores. “O bandeirante surgiu como símbolo especificamente paulista, nunca houve uma mitologia bandeirante fora de São Paulo” explica o sociólogo e historiador Ricardo Luiz de Souza. 

 

Com a criação do Instituto Histórico Geográfico São Paulo (IHGSP), os historiadores, que eram ligados às famílias cafeicultoras, “vão começar a construir uma história positivada, que valorizava o passado paulista, que valorizava os bandeirantes como construtores na nação, porque eles conquistaram terras e porque eles submeterem populações que não aceitavam o domínio português” diz o historiador Paulo Maris. “Você começa a homenagear quem submetia os índios numa década em que os fazendeiros de café estavam reproduzindo essa mesma situação”. 

 

Marins comenta ainda sobre a representação desses personagens. “A partir da década de 1910 serão inúmeras esculturas e pinturas que representam os bandeirantes sempre dessa maneira: majestático, nunca sangrento, ele tá sempre armado, mas sempre pacificado, pacificador, e sempre extremamente branco”.

 

“Eu enquanto sociedade brasileira prefiro não ver”

 

No dia 30 de setembro de 2016 o Monumento às Bandeiras e o Borba Gato amanheceram pichados de tinta colorida. Anos antes, em 2013, tinta vermelha foi derramada no Monumento às Bandeiras. Já em 2021, o Borba Gato foi tomado pelo vermelho do fogo. 

 

As intervenções ocorrem como forma de contestar esses símbolos que compõem a cidade. Para o museólogo Arthur Barbosa, esses movimentos chamam atenção para processos de violência que parte da sociedade quer fingir que não existiu. Ele expressa essa visão numa fala que mais parece um poema.

 

“Eu gostaria de fingir que os pretos não foram escravizados, que eles não foram trazidos para o Brasil para serem mão de obra. Eu gostaria de fingir que os indígenas não foram violentados em sua cultura, em sua terra, em sua posse. Eu gostaria de acreditar que a ditadura nunca aconteceu, que foi um regime. Eu queria fingir que o Brasil se desenvolveu durante o tempo da militarização. Eu quero fingir todas essas coisas. Enquanto sociedade brasileira prefiro não ver, mas eu não posso”. 

 

 

“Cabeças foram cortadas”

 

A partir do movimento de derrubada de estátuas vivenciado em 2020, surgiram discussões pautadas principalmente no que fazer com os monumentos contraditórios. Retirar as obras,  deixar onde estão, transferir para museus, colocar placas na frente das estátuas explicando quem é o homenageado, colocar monumentos de pessoas negras e indígenas na frente dessas obras. São várias as sugestões. 

 

“Se a gente tirar o Monumento às Bandeiras a gente vai botar ele aonde?” questiona o historiador Paulo Marins. Para ele, o mais viável é travar discussões sobre obras como essa, tratar do racismo e da mitologia bandeirante. Além de incluir placas e QR Codes com informações sobre as estátuas. “Eu não acho que a gente tem que tirar os monumentos que são problemas para nós, a gente tem que enfrentar os problemas” afirma. 

 

O pesquisador Pedro Alves compartilha da visão de que os monumentos contraditórios não devem ir para museus, e cita como justificava o tamanho das obras e o custo para essa operação. Mas ele oferece uma outra solução: cortar a cabeça dessas estátuas. Ele explica que essa seria “uma intervenção que mostraria uma mudança de consciência da população de São Paulo” e que “manteria a estátua ali e manteria esse exemplo de que cabeças foram cortadas, as cabeças desse passado escravista, as cabeças desse modo de vida”.

 

O museólogo Arthur Barbosa defende que é preciso pensar em formas de atualizar esses monumentos, em intervenções que “trabalhem esses significados dentro da legalidade e também quando necessário por meio do anarquismo”. Ele cita as projeções nos monumentos como forma de contestar as obras sem alterá-las. 

 

O artista multimídia Toni Baptiste é integrante do Coletivo Coletores, que já trabalhou em projeções em monumentos como Borba Gato e Monumento às Bandeiras. Ele corrobora com a visão de que é preciso ressignificar essas obras. Mas para o artista, “o maior problema não é o monumento estar ali hoje, o maior problema é ter pessoas que acreditam ainda que aquele monumento representa algo positivo”. 

 

Com o objetivo de proibir homenagens a escravocratas em São Paulo, a deputada estadual Erica Malunguinho apresentou em junho de 2020 o Projeto de Lei (PL)  nº 404/2020. O PL, que está em tramitação, prevê que monumentos que se encaixem nessa característica devem ser retirados das vias públicas e colocados em museus estaduais. 

 

Em outro projeto, o PL nº 47/2021, a vereadora Luana Alves propõe a substituição de monumentos e outras homenagens a escravocratas. No lugar dessas obras, se farão homenagens a personalidades históricas de negras, negros e indígenas. 

 

Estátuas pretas 

 

A Prefeitura de São Paulo anunciou em agosto de 2021 que a cidade vai ganhar cinco novas estátuas homenageando personalidades negras. Passarão a compor os espaços públicos figuras de pedra da escritora Carolina Maria de Jesus, do músico Geraldo Filme, do atleta olímpico Adhemar Ferreira da Silva, da sambista Deolinda Madre (madrinha Eunice) e do cantor Itamar Assumpção. Já em novembro de 2020 foi implementada a estátua de Tebas, um negro escravizado que atuou como mestre de obras, participando da construção de igrejas, por exemplo. 

 

O historiador Paulo Marins problematiza a questão da instalação de novos monumentos. Ele, como historiador, entende que pessoas queiram novos suportes de memória. No entanto, aponta que sempre estaremos idealizando a pessoa homenageada. Comenta ainda, que muitos são deixados de lado nas homenagens. No caso de Tebas, questiona se não vamos homenagear as pessoas que trabalhavam com ele, por exemplo. 

 

Para o pesquisador Pedro Alves, uma maior quantidade de estátuas de pessoas negras pode gerar uma sensação de maior pertencimento à cidade por parte da população negra. Já para a população branca, isso pode abrir caminhos para um maior conhecimento da história e quebra de estereótipos. Segundo ele, antes das estátuas é preciso haver outras ações para promover essa evolução. 

 

Quando perguntado sobre que pessoa gostaria de ver representada num monumento, ele menciona Maria Punga. Foi uma mulher negra, responsável por uma das primeiras cafeterias de São Paulo. “Se ela fosse uma mulher branca, tomando conta de seu café sozinha, seria uma das pioneiras no empreendedorismo feminino, já teria novela, livro, estátua dela", diz Alves. E acrescenta que como ela é uma mulher negra, mal se encontram registros sobre sua trajetória.