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Indígenas e padres no Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo 

Na tarde de uma quarta-feira, indígenas guaranis se acomodam em um espaço da cidade de São Paulo e são recebidos por um padre. Esse primeiro encontro não é lá muito amigável. Quando viu as visitas, disse algo como: “O que vocês estão fazendo aqui? O que vocês querem? Aqui vocês não vão ficar!”. Logo em frente ao ocorrido, um monumento retrata uma cena oposta, são os padres jesuítas que chegam ao território que viria a ser São Paulo, e sua relação com os indígenas é demonstrada como pacífica. 

 

A cena ocorreu em abril de 2014, no Pátio do Colégio, local que abriga a estátua Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo, que busca contar o processo de fundação da cidade, ocorrido há mais de 400 anos. Quem descreveu a situação acima foi Tiago Silva, integrante da Comissão Guarani Yvyrupa e morador da Terra Indígena Tenondé Porã. Ele explica que essa foi uma das ações para pedir a demarcação da terra. 

 

Silva relembra que a cidade foi criada sobre aldeias indígenas e diz que a ocupação foi um modo de simbolizar que “a gente veio ocupar uma área que um dia foi nossa” e completa “pra vocês sentirem também o que é perder território”. 

 

Construída a partir de reforma em uma região central de São Paulo, a estátua de mais de 25 metros de altura está no lugar que é considerado o berço da cidade. Teve seu edital publicado em 1909 e sua inauguração em 1925, está então próxima de completar 100 anos. “Além dos representantes oficiais, notava-se a presença de uma grande multidão, por todo o largo do Palácio”, diz um trecho de reportagem do Estadão sobre a inauguração do monumento. 

 

A obra homenageia o padre José de Anchieta, o padre Manoel de Paiva e o cacique Tibiriçá como os fundadores de São Paulo. A historiadora Ana Rita Uhle, que analisou essa obra em sua tese de doutorado, diz que, tendo em vista a bibliografia indicada no edital e a comissão responsável pela obra, “é o jesuíta que aparece como figura central para a fundação de São Paulo". 

 

Na época, Uhle diz também que havia “um esforço dos historiadores de criar uma narrativa para São Paulo”. Essa narrativa era feita a partir da ideia de quem fundou a cidade, na busca por uma origem nobre. O Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo surge como o primeiro grande monumento da República, e entre as décadas de 20 a 60 houve ampla construção de estátuas na cidade. 

 

Além disso, um ano antes da inauguração do monumento houve a Revolta Paulista de 1924, em que a cidade ficou sob ocupação militar por algumas semanas. Na ocasião, "as autoridades governamentais abandonaram a capital e a rotina administrativa, econômica e social foi bastante alterada", como explica o historiador e professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP) Paulo Henrique Martinez. Dessa forma, “a inauguração do monumento deve ser entendida nesta perspectiva de reafirmação da liderança política e econômica e de superação de uma crise sem precedentes”. 

 

Nos eventos retratados no monumento, os jesuítas aparecem como "professores, catequistas, mediadores", explica a historiadora, e no momento de conflito são demonstrados como apaziguadores. Já os indígenas são retratados como amigáveis e como sujeitos que colaboraram e aceitaram a colonização. “Vão dizer que o índio paulista é um índio bom” resume Uhle. Apesar dessa relação amistosa colocada na obra, “enquanto este monumento era construído, no oeste paulista estava acontecendo genocídio indígena”. Além disso, a relação amistosa não excluía uma relação de hierarquia. Os indígenas são representados com corpos retorcidos, curvados, em contraste aos corpos eretos dos padres. 

 

O edital do concurso público para o monumento que celebrasse a fundação da cidade foi publicado no jornal O Estado de São Paulo em maio de 1909. A bibliografia proposta contava, por exemplo, com crônica de um jesuíta. Seis projetos participaram do concurso e a maquete vencedora foi a enviada pelo escultor Amadeu Zani.

 

Entre as cenas gravadas em bronze no pedestal da obra está a atuação do Padre Anchieta, a celebração da primeira missa, o papel de aliado à colonização do cacique Tibiriçá e o apaziguamento por parte dos padres em relação à Guerra dos Tamoios. Segundo Martinez, as situações descritas na estátua procedem, “mas a história não se esgota aí e nem por si". Apesar dos idealizadores do monumento se preocuparem com uma narrativa próxima do real, a obra ocultou a resistência indígena no contexto da fundação da cidade. “Ao incluir o cacique Tibiriçá, reitera-se o reconhecimento e a submissão da autoridade local ao domínio da Coroa portuguesa” explica o professor.

A opção por essas cenas são inevitavelmente excludentes em relação a outras não retratadas. Não há indicação de confrontos no processo de catequização, “como se a catequese não fosse um processo extremamente violento, conflituoso, de muita resistência” diz Uhle, explicando que houve um silenciamento de toda essa resistência. 

 

Há também a exclusão da figura do negro, já que a narrativa usada era a de que São Paulo nasceu da mistura do índio com o branco. Quando questionada de que nesse momento de fundação ainda não havia população negra escravizada, ela diz que é possível entender que a cidade começa em vários momentos, ao passo que a escolha foi por essa narrativa pacificadora, “é a escola, não é uma batalha” colocada como marco da criação da cidade. 

 

Sobre o processo de fundação, Martinez acrescenta que “havia um obstáculo concreto e permanente: o caminho da serra de Mar, íngreme, tortuoso, instável e arriscado”. As qualidades climáticas, além da diversidade de fauna e flora, contrastavam com a “dura realidade que arranhava a ideia de paraíso terrestre”. Doenças e dependência dos conhecimentos dos nativos e de sua disposição para atuar com os colonizadores estão entre os fatores dessa dura realidade. 

 

Voltando para estátua, nota-se medalhões com o rosto de figuras da época, como Dom João III. Acima disso, há um amontoado de indígenas trabalhando pela construção de casas e da igreja, quem os comanda é o Padre Afonso Braz. Antes de chegar à parte superior do monumento, se observa uma grande coluna. Segundo Martinez esse item é um símbolo de  triunfo, supremacia e autoridade. 

 

Chegando finalmente ao topo da estátua, vemos uma mulher que representa a cidade com os dois braços erguidos para o alto. Em uma das mãos ela segura uma tocha, e na outra, um ramo de louros e uma foice. Esses objetos são referências a, respectivamente, o amor eterno, a glória e o trabalho. Esses ideais representam a ideia de submissão ao governo e a igreja católica, como explica Martinez. 

 

Fraternidade e glória eram valores a serem alcançados. Já a alusão ao trabalho escondia a ascensão da rebelião do movimento operário. O professor lembra do “alcance e a repercussão que as greves nas principais indústrias paulistas e a revolução de outubro, na Rússia, ocorridas em 1917, tiveram entre as lideranças políticas e econômicas da burguesia”. O monumento traz então referência a uma ordem social e política inabalável.  

 

A figura feminina, por sua vez, é uma representação recorrente em monumentos, que traz elementos como a fertilidade, reprodução e ancestralidade. “É a lembrança da mãe-pátria, recordando que todos possuíam, em comum, uma origem natural e social, eram pais e filhos de uma comunidade de destino, individuais e coletivos, à qual se vinculavam, aceitavam e defendiam.” explica o historiador. Essas questões, segundo ele, são um apelo para a aceitação da estrutura e valores predominantes da cidade que passava por um crescimento industrial e também demográfico. 

 

Como dito, o monumento Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo está localizado no Pátio do Colégio. O local, que já foi sede do governo da cidade, é lembrado pela realização da primeira missa que indica o momento da fundação. Uhle explica que pensar o lugar onde nasceu a cidade é algo muito simbólico, constituindo um lugar de memória, ao passo que o monumento sobre a fundação de São Paulo é colocado para marcar esse espaço. 

 

Martinez chama atenção para o que estava ao redor do monumento que enaltece os poderes governamental e religioso, “estava circundado por edifícios públicos, como Palácio do Governo, secretarias e repartições estatais no entorno do antigo colégio”. Havia também as variadas igrejas que “ilustravam a presença ostensiva da religião católica na vida da cidade”.