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Anhanguera: o bandeirante da Avenida Paulista 

De bota, calça e camisa amassada, a estátua de Bartolomeu Bueno da Silva está em frente ao Parque Trianon. De frente para a obra, do outro lado da rua, está o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). Mais conhecido como Anhanguera, o personagem tem sua homenagem feita em mármore e mede mais de três metros. Conta ainda com um pedestal de granito com cenas em alto-relevo difíceis de identificar por razão da degradação. 

 

A estátua é do ano de 1924 e foi feita pelo escultor italiano Luigi Brizzolara. Nem sempre ficou na Avenida Paulista, se mudou para este local 11 anos após sua inauguração. Originalmente passava seus dias nos jardins do Palácio dos Campos Elíseos, próximo à rua de nome Anhanguera. 

 

Anhanguera, aliás, é nome de vários locais. Essa que escreve esse texto, por exemplo, mora no Km 25 da Rodovia Anhanguera, consegue ir a pé até o Parque Anhanguera, tomou sua vacina contra Covid-19 na UBS Integrada Parque Anhanguera. O bandeirante tem seu nome também em escola, faculdade e rede de televisão regional. 

 

Bartolomeu Bueno da Silva nasceu no ano de 1672 e morreu em 1740, aos 68 anos. Tem o mesmo nome de seu pai, de quem herdou a ocupação de bandeirante. O apelido também é igual: Anhanguera, que significa “espírito do mal" ou “diabo velho”. Bartolomeu teria recebido o apelido de índios goiá, após colocar fogo em aguardente e ameaçar fazer o mesmo com os rios. 

 

A partir disso, os indígenas se submeteram a ele. O historiador Eduardo de Quadros acredita que o truque pode ter sido usado também por outros bandeirantes. De modo geral, sua relação com indígenas era “de muita violência, domínio, escravização e também algumas alianças”. 

 

Anhanguera foi estabelecido como fundador da cidade de Goiás, antiga capital do estado de mesmo nome. O bandeirante encontrou minas de ouro nesse território e por isso recebeu o título de descobridor, o que lhe rendia alguns benefícios. Segundo Quadros, o explorador sai de São Paulo já com mais de 50 anos para procurar ouro por ordem do governador. Essa primeira viagem é fracassada, e então Anhanguera retorna e pede auxílio ao governador, que manda um novo contingente de pessoas. É na segunda viagem, que ocorre a descoberta do ouro na região da atual cidade de Goiás. 

 

Em relação a sua colocação como fundador de Goiás, o historiador afirma que a cidade “foi criada contra o Anhanguera, que queria mandar em tudo, por ser um descobridor”. A Coroa age então para limitar os poderes do bandeirante, com a criação da cidade de Vila Boa de Goiás, determinação de novos cargos e instalações. 

A partir da descoberta do ouro, pessoas passam a chegar no local e Bartolomeu quer controlar o território. Passa a atuar em relação à fronteira, passagem de pessoas, uso do rio e cobra altos impostos. Eduardo de Quadros, que é autor de um artigo sobre o bandeirante, diz que encontrou várias denúncias de que ele não autorizava que as pessoas plantassem, para que comprassem os alimentos que ele vendesse. “Coisas que ele não poderia fazer, não tinha poder para isso, mesmo sendo descobridor” afirma o historiador e completa “ele queria ser um reizinho aqui da futura capitania de Goiás". 

 

As atitudes de rei renderam punição ao bandeirante, “no fim ele vai ser condenado, ele foi processado e foi condenado como ladrão, como corrupto” explica o historiador. Além disso, teve seus bens oficialmente tomados pela Coroa. 

 

O bandeirante de mármore carregava uma adaga na mão, que foi quebrada em uma briga. Na ocasião, que ocorreu nos anos 1970, um homem usou o objeto para ferir outro, em um embate pela namorada. O caso está descrito em uma nota do livro Além dos Mapas - os Monumentos no Imaginário Urbano Contemporâneo, de Cristina Freire. 

 

Nos anos 60, a estátua protagonizou uma propaganda eleitoral para presidência da república do então candidato Jânio Quadros. Na peça, o monumento está em frente a uma bandeira do Brasil e outra de São Paulo. 

 

O monumento foi o primeiro a integrar o programa da prefeitura “Adote uma Obra Artística”, que tem o objetivo de conseguir apoio de empresas para preservar obras públicas. Nos anos 2000 a Rádio Bandeirantes assinou o “Termo de Cooperação” para adotar o Anhanguera. Quando a restauração terminou, o jornal Estadão publicou uma nota de título “Pronta para vândalos" (em 9 de novembro de 2000) informando que após 46 dias de restauro e limpeza a estátua voltou para a Avenida Paulista. “A dúvida, agora, é apenas uma: por quantas horas a obra, de mármore branco de Carrara, resistirá ao ataque dos pichadores?” dizia o texto. 

Além das pichações, o Anhanguera de mármore branco sofreu outras intervenções ao longo dos quase 100 anos em que vive na cidade. Em 1979, o grupo 3nós3 cobriu a cabeça do bandeira com um saco de lixo, fez isso também com outras 67 estátuas da cidade. A ação denominada “Ensacamento” fazia referência a prática usada em interrogatórios durante a ditadura militar, de cobrir a cabeça dos cidadãos com sacos. 

 

Já em 2013, o monumento foi coberto por um tecido preto com grafismos indígenas. A ação ocorreu durante uma manifestação contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215, que delega a demarcação de terras indígenas apenas ao Congresso Nacional. No mesmo dia, manifestantes jogaram tinta vermelha no Monumento às Bandeiras. 

 

Mais recentemente, em 2020, o Grupo de Ação colocou peças de crânios em frente à estátua de Anhanguera, e uma delas foi pendurada em sua mão. A intervenção, que ocorreu também em outras estátuas, teve o objetivo de questionar as homenagens aos personagens. 

 

Neste sentido de questionamento e reflexão sobre as estátuas que compõem os espaços públicos, Eduardo de Quadros argumenta que, no caso das homenagens a bandeirantes, durante um momento São Paulo quis consolidar essa imagem do desbravador. Tendo isso em vista, é preciso interpretar essas obras “como um jeito de pensar essa herança do passado que se constitui hoje pela violência”. E conclui “afinal, a elite política também é violenta como Anhanguera foi, também é demoníaca como Anhanguera foi”.