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Joaquim Pinto de Oliveira existiu 

De costas para a escravidão e apontando para a liberdade, a caçula estátua de Tebas homenageia um mestre de obras que viveu na São Paulo do século XVIII e participou da modernização da arquitetura da cidade. O monumento foi entregue no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro de 2020, e inaugurado oficialmente no dia 05 do mês seguinte. Joaquim Pinto de Oliveira dominava a técnica de transformar pedra em arte, o que era raro numa cidade feita toda de taipa de pilão. 

 

Joaquim nasceu em Santos e migrou para São Paulo já na faixa de seus 30 anos de idade junto ao seu senhor Bento de Oliveira Lima. Anos depois, a partir de 1765, quando a cidade que estava sob jurisdição do Rio de Janeiro tem sua autonomia restabelecida, se inicia uma série de reformas. Entre elas, estão as reformas na arquitetura visando receber um maior número de pessoas. O historiador Luis Gustavo Reis, explica que foi nesse contexto que Bento conseguiu arrematar um conjunto de obras. 

 

Nessas obras, Tebas e seu senhor vão usar a pedra, um elemento comum nas construções de Santos, e que, por outro lado, era escasso em São Paulo. A cidade carecia também de artífices que dominavam o uso desse material. O escravizado e o senhor usavam a técnica da pedra de cantaria, que “nada mais que o corte, o entalhe, o emparedamento das pedras” como explica o historiador, que é autor da dissertação de mestrado A trajetória de Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas: trabalho, escravidão, autonomia e liberdade em São Paulo colonial (1733-1811). 

 

Quem passa pela Praça Clóvis Beviláqua, na Sé, e para a fim de olhar a estátua de aço e ler sua placa descobre que a figura representada é de um “homem negro” que “conquistou a a alforria aos 57 anos de idade e renovou a arquitetura paulistana do século XVIII”. Ao continuar a leitura da placa do pedestal há a informação de que “seu principal feito foi livrar-se das correntes e alçar voo para a eternidade" e “a natureza coletiva do seu legado o libertou do esquecimento”. O voo não está apenas nas palavras, Joaquim está elevado em relação à base do monumento e os objetos atrás dele - um esquadro e um transferidor - funcionam como asas. 

 

Na mesma placa, vemos o nome do artista Lumumba Afroindígena e da coautora Francine Moura. O artista plástico e a arquiteta fizeram a obra no prazo de dois meses a partir de um convite da Secretaria Municipal de Cultura. Com mais de três metros de altura, a estátua pesa 300 kg, tem um pedestal de concreto e leva o título de Monumento Joaquim Pinto de Oliveira -  O Tebas. 

 

O posicionamento do homem de aço também revela sua história. Atrás dele está a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, projeto que Tebas trabalhou ainda na condição de escravizado. Com um pergaminho na mão, o mestre de obras aponta para a Catedral da Sé. Ao finalizar a antiga matriz já demolida, Tebas comprou sua liberdade. 

 

Além da igreja, Tebas está apontando para o futuro, como vê Francine Moura, o arquiteto está “apontando um caminho para a gente trilhar” e “construir uma realidade outra muito diferente da que ele viveu”. A arquiteta entende a escultura como um portal em que Joaquim nos mostra um novo caminho, em que lembramos do passado, mas nos projetamos para o futuro, seguindo em frente.  

 

Já na máscara que fica no rosto do Tebas de aço, há um transferidor com um relógio desenhado “que é justamente para marcar esse tempo dele de apagamento” explica Lumumba. O artista revela que houve um debate para a obra ser abstrata, como outras que compõem a praça. “Aí eu tenho que ouvir, enquanto artista negro, que o interesse de um setor da Secretaria de Cultura era que a escultura fosse abstrata” desabafa. Para ele, “isso reforçaria o apagamento, ao invés de trazê-lo para a luz”.

No contexto das reformas arquitetônicas da cidade no século XVII, as igrejas buscavam renovar principalmente suas fachadas, já que era caro aplicar pedra em toda a edificação. O primeiro projeto que Tebas trabalhou em São Paulo foi na Igreja de São Bento e lançou inclusive a pedra fundamental. O mestre de obras também dedicou suas habilidades à torre da antiga Catedral da Sé, à igreja da Ordem Terceira do Carmo e à fonte de São Francisco. 

 

Joaquim se notabilizou ainda por comandar a construção do Chafariz da Misericórdia, o primeiro sistema de abastecimento público de água da cidade. A obra recebeu o apelido de Chafariz de Tebas e contou com o trabalho de muitas outras pessoas. Luis Gustavo Reis explica que o chafariz é o projeto de coroamento do artífice, “porque foi uma de suas obras de maior vulto”, sendo realizada na condição de livre. 

 

Conforme conta o historiador, esse sistema já era aguardado pela população e passou a ser um ponto de encontro dos moradores da cidade. E por não ser uma construção de cunho religioso, “é a obra justamente que ele teve alguma liberdade para criar” afirma o pesquisador José Abilio Ferreira, que é organizador do livro Tebas - Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata. Sobre o significado do apelido Tebas, Ferreira indica que a palavra tem origem quimbundo e se refere a uma pessoa de excelência no que faz. 

 

Atualmente distante dos espaços públicos da cidade, o Chafariz da Misericórdia ganhou uma réplica cenográfica exposta durante a Jornada do Patrimônio de 2020. O evento é realizado anualmente pela prefeitura e visa promover a valorização do patrimônio cultural. Foi na edição de 2020, cujo tema era Nossa cidade, nossas memórias, que ocorreu a inauguração do monumento de Tebas. 

 

Nesse contexto em que a história de Tebas vem à tona, Reis afirma que “a importância primordial de resgatar esses personagens é para dizer sobretudo que eles não eram exceção”. Ele salienta que existiram outras pessoas negras com contribuições relevantes como a de Joaquim Pinto de Oliveira, mas que foram colocadas de lado. Francine Moura compartilha dessa visão. Apesar da estátua do personagem, levar o nome de O Tebas, “acredito que ele tenha sido um Tebas” e que não conhecemos tantos outros como ele. 

 

Ainda nessa linha, o historiador critica a mitificação de Tebas e a colocação do personagem “sempre com essa aura do herói". “Parece que para ser aceito na contemporaneidade ele tem que passar por essa visão do mito, do cara que é excepcional”, desabafa. Acrescenta que a mitificação de Tebas tira sua humanidade. A partir desse olhar podemos entender Joaquim não como um herói, mas como uma pessoa que de fato existiu. 

 

Em 2018, Tebas foi reconhecido como arquiteto pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo (SASP). Para Abilio, “ali foi o primeiro sinal de que o Tebas era um assunto que iria dar pano pra manga”, devido ao auditório cheio do sindicato no dia 21 de março daquele ano. Luis Gustavo menciona que a documentação acerca do personagem não o descreve como arquiteto, mas como pedreiro ou mestre de obras. E acrescenta que o reconhecimento como arquiteto deve ser entendido dentro de um contexto político, em que este título oferece um prestígio maior ao personagem. 

 

Tebas foi reconhecido ainda em outras situações. Em 2004 foi aprovada a criação da Semana Tebas de Ciência, Tecnologia e Educação. O evento ocorre em Cidade Tiradentes e busca resgatar a memória do personagem. Já em 2021, após a inauguração da estátua, foi lançado o Instituto Tebas, que trabalha na valorização da memória e do patrimônio cultural negro e indígena. 

 

Joaquim teve seu nome lembrado também em música. Foi tema de samba-enredo da A Escola de Samba Paulistano da Glória em 1974. A canção Tebas, o negro é de autoria de Geraldo Filme. Um trecho do samba diz: “Tebas, negro escravo/Profissão: Alvenaria/Construiu a velha Sé/Em troca pela carta de alforria”. 

 

A libertação de Tebas está mesmo associada à construção da antiga torre da Catedral da Sé. Quando seu senhor Bento Pinto de Oliveira morre, a construção está incompleta, mas o pagamento já foi realizado. Bento deixa uma série de dívidas que a mulher Antonia Maria Pinta tem que arcar. Um sacerdote arremata o sítio da família e condiciona o pagamento à finalização da construção no prazo de dois anos. 

 

Esse prazo não é cumprido e posteriormente seus bens vão para leilão. Tebas é arrematado pelo padre Matheus Lourenço de Carvalho. O religioso faz isso para que o mestre de obras finalize a construção da igreja, que seria a principal matriz da cidade. 

 

Quando a construção é finalizada, Tebas processa Maria Pinta com a autorização de seu novo senhor. O motivo é que uma série de serviços que ele realizou após a sua venda tiveram parte do pagamento destinado a ela. Após ganhar o processo, Joaquim compra a sua alforria. 

 

Tebas foi avaliado em 400 mil réis, o mais caro de todos os escravos que eram de Bento. Na condição de homem livre, se tornou também dono de escravos. “Tebas, por exemplo, ajudou a sustentar a escravidão a medida que ele se liberta do cativeiro e compra outros escravos” salienta Luis Gustavo. 

 

Conforme explica Luiz Gustavo, Tebas já desfrutava de autonomia mesmo na condição de escravizado. Ele não vivia na mesma casa de seu senhor, recebia pagamentos por obras que realizava e em um dos documentos aparece como fiador do Bento. “A trajetória do Tebas é um contraponto às teses de coisificação do escravizado” diz o historiador e acrescenta “contraponto a essa escravidão de dominação absoluta, de que o escravizado não reagia”.

 

Em sua estátua na Sé, seu período de escravidão está retratado em forma de uma corrente na base do monumento, em uma das pontas do compasso. Esse item é o único em ferro e já mostra sinais de enferrujamento, "a intenção mesmo é que ela se deteriore ao longo do tempo, de acordo com que as questões étnico raciais avancem" explica Lumumba Afroindigena.

Monumento Joaquim Pinto de Oliveira -  O Tebas. Foto: Beatriz de Oliveira

Marido, pai e avô, Joaquim morreu em 11 de janeiro de 1811, com cerca de 79 anos de idade. Na certidão de óbito há o registro de 90 anos, mas Luis Gustavo explica que ao cruzar os documentos a idade mencionada é a mais provável. Foi sepultado na Igreja de São Gonçalo, de pé até hoje na Praça João Mendes, também na região da Sé, assim como o seu monumento.